Em junho de 2018 a Microsoft anunciou a compra do GitHub por US$ 7,5 bilhões em ações, e a pergunta que todo desenvolvedor fez foi se valia a pena tirar o código de lá. Oito anos depois dá para responder: a plataforma melhorou muito mais do que piorou, o êxodo para o GitLab não aconteceu, e o que se perdeu não foi a qualidade — foi a independência.
Este texto foi publicado quando o negócio ainda era notícia e terminava em pergunta aberta. Está reescrito com o que de fato aconteceu.
O que a Microsoft entregou
A lista é longa, e quase tudo nela é posterior à compra. Em janeiro de 2019 o repositório privado ficou de graça na conta gratuita, primeiro com até três colaboradores e, a partir de abril de 2020, sem limite. Em novembro de 2019 chegou o GitHub Actions, que trouxe integração e entrega contínua para dentro da própria plataforma, sem custo em projeto público — até então, quem quisesse rodar teste a cada envio contratava um serviço à parte.
No mesmo período o GitHub comprou a Dependabot e a Semmle, que viraram o alerta de dependência vulnerável e a varredura de código do CodeQL, e em março de 2020 comprou o npm, o registro de pacotes de onde vem praticamente todo projeto JavaScript do mundo. Depois vieram o Codespaces, que abre o ambiente de desenvolvimento no navegador, e o Copilot, em prévia técnica em 2021 e aberto a todos em junho de 2022.
Somando: o GitHub de hoje faz, em boa parte de graça em projeto aberto, o que em 2018 eram três ou quatro contratos separados. É difícil argumentar que a aquisição piorou o produto.
O êxodo para o GitLab não aconteceu
O medo era real e a migração também foi real — só que pequena. Na semana do anúncio o GitLab chegou a receber dez vezes o volume normal de repositórios importados, e virou manchete. O que veio depois não virou.
O relatório Octoverse de 2025 do próprio GitHub contou mais de 180 milhões de contas de desenvolvedor e 630 milhões de repositórios, com 36 milhões de contas novas em um ano. Em 2018, quando o negócio foi anunciado, eram 28 milhões de desenvolvedores e 85 milhões de repositórios. A plataforma não encolheu: ela multiplicou por seis.
O que se perdeu foi a independência
A promessa de 2018 estava escrita: o GitHub manteria o seu jeito e operaria de forma independente. Essa parte não sobreviveu, e não caiu de uma vez.
O primeiro CEO sob a Microsoft foi Nat Friedman; em novembro de 2021 o cargo passou para Thomas Dohmke. Em agosto de 2025 Dohmke anunciou a saída, e a Microsoft não nomeou substituto: o GitHub deixou de ter um CEO próprio e passou a responder direto à divisão CoreAI, a mesma que cuida do Copilot. Sete anos depois do acordo, a independência não acabou por anúncio — ela simplesmente deixou de existir.
E a comparação com o Skype, que em 2018 era piada recorrente na internet, envelheceu de um jeito específico: a Microsoft comprou o Skype em 2011 por US$ 8,5 bilhões e desligou o serviço em 5 de maio de 2025, empurrando quem restava para o Teams. Não é o destino provável do GitHub, que é lucrativo e central para a estratégia da empresa. Mas quem em 2018 disse que a piada era injusta estava mais errado do que parecia.
A conta que apareceu depois
O Copilot foi treinado em código público hospedado na própria plataforma, incluindo projeto sob licença que exige atribuição. Em novembro de 2022 uma ação coletiva foi aberta nos Estados Unidos contra o GitHub, a Microsoft e a OpenAI por causa disso.
Em janeiro de 2024 o juiz derrubou a maior parte dos pedidos — vinte dos vinte e dois —, por entendê-los cobertos pela lei de direito autoral federal. Sobrou uma questão de DMCA que subiu em recurso para a corte federal de apelações do Nono Circuito, com o processo de primeira instância suspenso até ela ser respondida. Ou seja: até hoje não há decisão de mérito sobre treinar modelo em código aberto alheio.
Vale registrar o que isso significa na prática: quem publicou código aberto no GitHub antes de 2021 não foi consultado sobre esse uso, e não tinha como ser — o produto não existia. Esse é o tipo de mudança de contrato que só aparece depois, e é a razão mais concreta para pensar em onde o código mora.
O que isso diz para quem escolhe onde guardar código hoje
A lição de oito anos não é sobre GitHub nem sobre Microsoft. É sobre onde mora o risco de depender de uma plataforma, e ele quase nunca está onde se olha.
O repositório é a parte fácil. O git é distribuído: cada clone tem o histórico inteiro. Trocar de hospedagem de código é uma tarde de trabalho, e foi exatamente por isso que o êxodo de 2018 podia ter acontecido e não fez falta a ninguém que ficou.
O que prende é o que está em volta. Fluxo do Actions, discussão de issue, revisão de pull request, pacote publicado, permissão de equipe, integração com o que avisa o time. Nada disso é git, nada disso sai no clone, e é aí que mora o custo de sair — que só se descobre no dia em que se decide sair.
A regra prática é medir esse custo antes de entrar, não depois: manter um espelho automático do repositório em outro lugar custa quase nada, e exportar as issues de vez em quando custa menos ainda. É o mesmo raciocínio que a gente aplica quando tira um portal de uma plataforma e põe em outra: o que dá trabalho nunca é o conteúdo, é tudo o que foi construído em volta dele.
Perguntas frequentes
A Microsoft piorou o GitHub?
Não, se a conta for de produto. Depois da compra o GitHub ganhou repositório privado gratuito, integração e entrega contínua com o Actions, varredura de código e de dependência, o registro npm, ambiente de desenvolvimento no navegador e o Copilot — quase tudo sem custo em projeto aberto. O que a plataforma perdeu foi autonomia: desde o fim de 2025 ela não tem CEO próprio e responde direto à divisão CoreAI da Microsoft.
Vale a pena migrar do GitHub para o GitLab hoje?
Só se houver um motivo concreto, como exigência de manter o código dentro da própria infraestrutura ou uma regra de conformidade que o GitHub não atenda. Desconforto com o dono não é motivo suficiente: em oito anos o produto melhorou, e o custo real da troca não está no código, está em reconstruir as automações, o histórico de discussão e as permissões que vivem na plataforma.
O que sai junto quando se clona um repositório do GitHub?
Sai o código e o histórico completo de commits, branches e tags — isso o git carrega inteiro em cada clone. Não sai nada do que a plataforma guarda por fora: issues, pull requests e suas revisões, execuções do Actions, releases, wiki, pacotes publicados, configuração de permissão e integrações. Um espelho do repositório protege o código; o resto precisa de exportação à parte, feita pela API.
O processo sobre o Copilot foi decidido?
Não. A ação coletiva aberta em novembro de 2022 teve a maior parte dos pedidos derrubada em janeiro de 2024, e o que sobrou é uma questão de DMCA em recurso no Nono Circuito, com o processo de primeira instância suspenso até a resposta. Não existe, até agora, decisão de mérito sobre treinar modelo de IA em código aberto de terceiros.



